Mais mente do que músculos (jornal Expresso)

Chama-se Gracie Jiu-jitsu e está a cativar os gestores e líderes portugueses. Tudo porque esta arte marcial ensina como a inteligência e a estratégia mental são tudo o que basta para derrotar adversários. Tanto nos combates da modalidade, como na vida e no mundo do trabalho.

Não depende da força, mas sim da estratégia mental. Permite desenvolver a autoconfiança e as capacidades psicomotoras, ao mesmo tempo que melhora a condição física e permite uma defesa pessoal eficaz em qualquer idade ou sexo. Chama-se Gracie Jiu-jitsu e apesar de ser uma arte marcial ainda pouco divulgada em território nacional tem vindo a cativar cada vez mais praticantes, sobretudo, entre os profissionais que ocupam cargos de chefia e liderança. Tudo porque um dos princípios desta modalidade, também já apelidada de “xadrez humano”, é que a inteligência suplanta a força.

Estratégia, concentração, autoconfiança e determinação são alguns dos valores que norteiam a prática do Gracie Jiu-jitsu, também conhecido como Jiu-jitsu brasileiro. Uma modalidade criada na década de trinta do século passado, no Brasil, por Hélio Gracie que provou que músculos e altura não são determinantes para se ser um bom praticante de artes marciais (ver caixa “Mais do que músculo”).

Em Portugal, a modalidade está pouco divulgada mas tem vindo a ganhar adeptos e não se pense que a massa de praticantes é exclusivamente masculina. João Santos, instrutor e responsável pela Academia Gracie Lisboa ( www.gracielisboa.blogspot.com ), onde diariamente varias dezenas de praticantes aprendem a arte, refere que “por aula temos neste momento 26 a 34 pessoas de ambos os sexos, maioritariamente com idade superior a 30 anos”. Gestores, empresários e profissionais com cargos de chefia e liderança têm papel de destaque entre os praticantes desta modalidade talvez por terem já percebido os benefícios que a prática da modalidade confere ao seu quotidiano pessoal e profissional.

É o caso de Cristóvão Fonseca, empresário e praticante de Gracie Jiu-jitsu. Para o praticante, “apesar do jiu-jitsu funcionar na prática como um desporto individual, o trabalho com o parceiro de treino e com toda a equipa é de extrema importância, não só para a competição como também para a própria evolução do nosso desempenho, visto que é importante enfrentarmos diferentes atletas, com diferentes técnicas e capacidades”. O empresário acrescenta ainda que “esta realidade é facilmente transposta para um cargo de chefia ou direção empresarial onde a noção de grupo e equipa é essencial para o sucesso apesar de cada um contribuir de forma distinta, com diferentes opiniões e abordagens para melhor se identificar problemas existentes e alcançar soluções”. Cristóvão Fonseca refere ainda que “cada luta/combate deve ser encarado com uma estratégia diferente, de acordo com a prestação do adversário. Da mesma forma que este tipo de abordagem pode contribuir para que na nossa atividade profissional tenhamos atenção ao nosso mercado, procurando identificar as lacunas da concorrência”.

Ensinamento que deixam para segundo plano a procura pela melhoria da condição física. Na verdade, também para Pedro Tomás Luís, gestor de recursos humanos e recente praticante da modalidade, a condição física não é a principal motivação. O desenvolvimento da autoconfiança e autoestima, o controlo da ansiedade e das emoções são algumas dos motivos que levam os praticantes a apostar no Gracie jiu-jitsu. “É como jogar xadrez humano. Mistura um elevado grau de concentração, capacidade de antecipação, capacidade de decisão sob pressão, planeamento e obterá a essência do Gracie Jiu-jitsu ou de qualquer negócio”. Como profissional de recursos humanos, o praticante reconhece que a modalidade “tem um imenso potencial no desenvolvimento de competências fundamentais a qualquer gestor, melhorando em muito as performances profissionais”.

Paula Almeida é a portuguesa com mais idade em competição. Aos 41 anos é a prova de que o Gracie Jiu-jitsu “é uma luta que assenta sobretudo na estratégia mental”. Paula é uma das atletas mais graduadas da Academia Gracie Lisboa e atrai a atenção de grandes empresas nacionais. Para a praticante, “aqui nada depende da força e esta é a única modalidade que tem respostas desenvolvidas de forma científica permitindo uma luta assente, sobretudo, no poder da mente”.

Atualmente com cerca de 200 praticantes em Portugal, divididos por 30 clubes, o Gracie Jiu-jitsu cresceu no país, segundo João Santos, “em muito devido à capacidade dos seus praticantes se adaptarem a qualquer situação e aos ganhos evidentes que gera em matéria de melhoria da capacidade neuromuscular e autoconfiança, fruto de um treino exaustivo de combate corpo a corpo onde o contacto é constante exigindo disciplina na gestão da pressão e controlo”.

Mas afinal quais as grandes diferenças entre o Gracie Jiu-jitsu e a modalidade tradicional? Segundo João Santos, “a primeira grande diferença é a estratégia de combate, a forma como se contorna ou ultrapassa o obstáculo e a adaptação do praticante à situação, permitindo fazer uma avaliação do oponente, descobrir rapidamente os seus pontos fracos e fortes e explorar isso em nossa vantagem”. Diz o especialista que “normalmente, esta arte marcial é procurada pelos que querem aprender a defender-se, mas neste momento é muito requisitada por profissionais que necessitam de ter treino de estratégia e gestão de stress ou pressão até porque a capacidade de avaliação e decisão sobre pressão são benefícios que se adquirem rapidamente pois para lutar é preciso avaliar corretamente a situação de combate enquanto ela decorre e tomar decisões corretas para contrariar o adversário”. Ao adquirir estas capacidades, diz João Santos, “a calma e o autocontrolo são consequencias imediatas. O facto de se ver o que vai acontecer mais à distância, de se ler o adversário e ter a capacidade de se adaptar rapidamente à situação e à mudança, permite que os praticantes não tenham de reagir de forma nervosa e impulsiva”.

Capacidade de adaptação para vencer adversários maiores e mais fortes, pela inteligência e não pela força, persistência perante a adversidade, calma sob pressão, detetar o timing certo da ação, tendo respeito pelo adversário e humildade são conceitos básicos para a aprendizagem e evolução nesta arte, mas também na vida profissional.

Mais do que músculo

A inteligência suplanta a força. É este um dos princípios basilares do Gracie Jiu-jitsu. A modalidade, que tem cativado cada vez mais portugueses, surgiu no Brasil, durante a década de 30, pelas mãos de Hélio Gracie, que deu nome à arte. Hélio passava os dias a assistir às aulas de Jiu-jitsu japonês do seu irmão Carlos que era professor e tinha aprendido com o mestre Mitsui Maeda. Como era demasiado pequeno e fraco, o irmão não o deixava treinar até ao dia em que perante um atraso do irmão, Hélio se prontificou a dar a aula a um dos alunos de Carlos. Quando o professor regressou o aluno pediu-lhe para continuar a ter aulas, mas com o irmão.

Face à sua condição física Hélio teve de adaptar o Jiu-jitsu japonês aplicando-lhe o princípio da alavanca de modo a tornar mais fácil a aplicação das técnicas. Assim nasceu o Gracie Jiu-jitsu, uma arte de defesa pessoal considerada hoje em dia como um xadrez humano, que permite a uma adversário pequeno e fraco derrotar um maior e mais forte.

Excerto da excelente reportagem do “Expressoemprego”: http://aeiou.expressoemprego.pt/

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